sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Locais de Venda



ūüĒĒūüďė O livro Os Meus Descobrimentos est√° √† venda em:

i) FNAC Alfragide / Algarveshopping / Almada / Amoreiras / Braga / Cascais / Chiado / Coimbra / Colombo / √Čvora / Faro / Gaia / Guimar√£es / Lagos / Leiria / Loul√© / Madeira / Marshopping / Montijo / Nortshopping / Oeiras / Set√ļbal / Sta. Catarina / Vasco da Gama / Vila Real / Viseu - www.fnac.pt/localize-loja-fnac/w-4

ii) Lisboa
Livraria Ferin - Chiado - R. Nova do Almada
Livraria Ler Devagar - Lx Factory
Livraria P√≥ dos Livros - Saldanha / S. Sebasti√£o
Palavra de Viajante - Rua de S√£o Bento
Livraria Ler - Campo de Ourique
Leituria - Rua Dona Estef√Ęnia
Livraria da Cossoul - Santos
Letra Livre - Cal√ßada do Combro
Livraria Papelaria Fonsecas - Intendente
Distopia - Rua de S√£o Bento
Livraria Mais - Rua de Luanda, Parede
Livraria Linha de Sombra - Cinemateca - R. Barata Salgueiro
GATAfunho, loja de livros - Oeiras
Livraria Menina e Mo√ßa - R. Cor-de-rosa, Cais do Sodr√©

iii) Porto

iv) Sines - A das Artes
v) Viseu - Livraria Alfarrabista Sidarta
vi) Guimar√£es - Almanaque 23
vii) Brasil - Livraria Cultura / FNAC Brasil

viii) Portugal - encomendar no site -
osmeusdescobrimentos.com/#compraonline
ix) Para qualquer parte do mundo - através da Amazon - disponível nos próximos dias

A lista completa está também em - osmeusdescobrimentos.com/#locaisdevenda

E o mapa das livrarias est√°
aqui.

domingo, 7 de janeiro de 2018

Viagem gastron√≥mica: SaikŇć em Lisboa

Reportagem ao SaikŇć
O novo sushi fus√£o de Lisboa

Resumo da Experi√™ncia: Este √© o novo lugar no "business district' de Lisboa onde se serve Sushi de Fus√£o. Mas aqui mais do que a am√°lgama sensorial a que v√°rios alfacinhas j√° se habituaram serve-se originalidade gastron√≥mica com toques de Brasil, √Āfrica, √Āsia e Europa. E assim neste cantinho acolhedor do Campo Pequeno conseguem cabem quatro continentes. No final, o paladar sai satisfeito. De ressalvar que ao almo√ßo h√° menus mais em conta que s√£o de aproveitar. At√© porque o pre√ßo na ementa, em geral, √© para um segmento caro da restaura√ß√£o mas a qualidade dos produtos servidos bem como o trato e a forma da arte de servir justificam o pre√ßo. Ideal para neg√≥cios, jantares rom√Ęnticos - e aten√ß√£o que vai haver uma promo√ß√£o no dia dos namorados - e viagens gastron√≥micas sem sair da mesa. Bem-vindos ao SaikŇć.



Reportagem Completa
O novo sushi do "business district" de Lisboa

A convite da Rita e do Tiago que gerem o SaikŇć (leia-se "saik√ī") com o apetite j√° agu√ßado fui at√© este novo canto gastron√≥mico da cidade. L√° sabia que iria provar um sushi inovador mas nesta casa, mais do que o sushi, o pr√≥prio conceito, o espa√ßo e as pessoas s√£o uma agrad√°vel e harmoniosa fus√£o.

Logo √† chegada, como t√≠nhamos mesa marcada, o Jorge, simp√°tico e profissional empregado de mesa, abriu-nos a porta com um sorriso na cara convidando-nos a entrar e dizendo "Est√°vamos √† sua espera Sr. Jo√£o". Ora come√ßando desta forma auspiciava-se desde logo uma agrad√°vel tarde de repasto. No servi√ßo de mesa fomos atendidos pelo Lucas que ao longo das duas horas e meia seguintes nos serviu comida em formato de longa-metragem. Sim, isto foi uma aut√™ntica maratona... Mas daquelas em que se corre por gosto. At√© porque a gastronomia japonesa √©, logo depois da nossa, a mais singular em todo o mundo. Quem n√£o tem curiosidade para a degustar? Mas por tr√°s dos funcion√°rios do SaikŇć Campo Pequeno, bem como de toda uma equipa de cozinheiros, ajudantes de cozinha e lado a lado com os gestores (infelizmente a Rita nem o Tiago l√° puderam estar neste dia), est√° o grande motor da casa (e no sentido mais literal tamb√©m, j√° perceber√£o porqu√™). Ent√£o passo agora a apresentar-vos o Chef P√©ricles Lacerda. Este profissional, j√° com ampla experi√™ncia na √°rea do sushi em Portugal (Zutchi, Tamagoshi, Sushimoto e Rio's), nasceu em Salvador da Bahia e como diz o pr√≥prio "Sou brasileiro mas fui criado no Estoril". Indica-nos ele tamb√©m que o "SaikŇć √© fus√£o, n√£o √© confus√£o!" O que faz todo o sentido tendo em conta o ar "clean", agrad√°vel e convidativo com que este restaurante nos brinda o olhar. Outra frase ainda que ele costuma dizer √© que o "SaikŇć n√£o vende sushi, mas vende sim a experi√™ncia".

E posto isto, vamos agora ao que ao que mais interessará aos leitores desta review na zomato... A comida: Começámos por pedir um chá. Até porque num restaurante de inspiração asiática o que mais poderia ser? Veio então o "sencha", um chá verde típico do Japão preparado com as folhas em contacto directo com a água quente, em oposição ao chá em pó também por lá utilizado. De sabor forte, com um travo amargo próprio desta folha oriental (que ressalve-se ainda cresce em Portugal, na ilha de São Miguel, para cá trazida a 1877 pelo mestre da arte de preparar chá, Lau-a-Teng). Mas como gosto deste chá servido numa malga ampla, com ar de ter vindo do Japão bem como o bule, e que nos permite beber descontraidamente e sem que metade do líquido se entorne não sabemos nós ou pouca gente saberá o porquê! O bule é sólido de ferro escuro esculpido geometricamente. E tudo encaixa neste espaço também ele de fusão com motivos árabes da praça de touros, bem como asiáticos. O jardim vertical é também um elemento engraçado e traz (mais) um toque de feng-shui ao espaço. E o bonsai à mesa no seu vaso com o nome do restaurante olha sobre nós o tempo todo. E como fica bem.

> "SaikŇć √© fus√£o, n√£o √© confus√£o!" - Conta o Chef P√©ricles

Se antes das sopas se molham as bocas, como por c√° se diz. Vou arriscar fundir umas palavras para deixar escrito que com os vossos pratos nos deixaram estupefactos. De uma apresenta√ß√£o irrepreens√≠vel. Nem um pequeno desvio de um molho havia. Nota m√°xima (nem sei se escrever Nota 20, como em Portugal, ou "Nota Deiz", como se diz no outro lado lus√≥fono do Atl√Ęntico Sul. Bem, e assim come√ßou provavelmente o mais belo desfile de sempre da gastronomia sushi dos √ļltimos tempos. A marcha alimentar propriamente dita come√ßou com as entradas. Algo surpreendente a√≠ viria, claro. Veio ent√£o um prato com duas folhas de end√≠vias recheadas com pasta de salm√£o, saboros√≠ssimo ali√°s. E ladeadas com uma por√ß√£o de pepino marinado e vagens de soja. Estas √ļltimas podem ser revistas, acredito. Pois, por serem muito fibrosas, s√£o dif√≠ceis de mastigar. E julgo n√£o ser o √ļnico com esta opini√£o. Um pequeno reparo apenas. Mas saud√°veis, l√° isso as vagens de soja s√£o.

















Seguiu-se o Ebi Especial SaikŇć. E que prato... De longe, e n√£o desmerecendo os restantes, foi o meu preferido. E eu que nem sou grande apreciador de camar√£o. Mas isto estava genial. Mesmo. Julgo que o Chef P√©ricles fez este golpe gastron√≥mico logo in√≠cio para nos deixar meio que imobilizados ("vide" a nota final desta reportagem sobre a veia desportista deste chef). O camar√£o veio enrolado e com ovas do peixe japon√™s "massagŇć" em cima. Ladeado no prato pelos molhos "kimuchi" (vermelho) bem como a maionese do chef. E vem claro o gengibre que, em pleno inverno tamb√©m serve para refor√ßar o sistema imunit√°rio. Aconselho. Depois veio o Hakusai (n√£o confundir com Hokusai... esse grande pintor japon√™s do qual recomendo conhecer a obra). Neste prato √© servido salm√£o envolto em couve-lombarda, com molho de maionese, no final salpicado com milho torrado, aqui sim, algo bem baiano, brasileiro, do sert√£o e interior deste pa√≠s onde existem tantos outros pa√≠ses. Adorei este prato! Incr√≠vel, mesmo. Nota dez, vinte ou cem... conforme a escala. Nota m√°xima, caros leitores. Isto vale mesmo a pena e pode mesmo at√© ser um expoente m√°ximo do sushi de fus√£o lus√≥fona. Um bela mistura e de "fus√£o mas sem confus√£o", pois os gostos combinam de uma forma divina. O quarto prato, e ainda a prociss√£o ia a meio..., foi o "Soft Crab", explicou-nos o Lucas. S√£o os rolos de sushi envoltos na alga marinha, mas preparados com caranguejo. E de novo, n√£o sendo eu apreciador de caranguejo, isto est√° t√£o bem preparado que √© imposs√≠vel n√£o gostar. J√° na recta final veio um prato assaz original. Ovo de codorniz envolto em salm√£o cozinhado e com ovos de massagŇć no topo, e vieiras abra√ßadas por salm√£o abraseado. No m√≠nimo original, e na verdade, muito saboroso. Principalmente o ovo de codorniz.

















No fim, e ainda antes das sobremesas (e que tabuleiro... já lá vamos!) foi-nos servido um prato com rolos de sushi com camarão, frito ao estilo tempura, e com salmão abraseado no topo. E repicado com molho agridoce tarê (também conhecido noutras latitudes como teriyaki). Muito fixe, mesmo. Então, para rematar, e como golpe final, vieram as sobremesas. E ainda algum espaço no trato digestivo lá se encontrou, para poder degustar esta irresistível mistura (depois da fusão) de comidas doces. Havia gelado de chá verde. Eu gostei. Mas fica desde já o aviso à navegação de que é um pouco azedo mas o chá verde é assim mesmo. Para quem o aprecie na chávena, pois deve provar este gelado que para mais é artesanal. Com ele, vinha também outra bola de chá de sésamo. Saborosíssimo também. E repito: para quem gostar destas sementes, então não hesitem em espetar a colher na tacinha. Para além disto, a tarte de lima é óptima. Bem como a mousse (embora confesse... a da minha mãe é a melhor do mundo e isso nunca será negociável!) A mousse de maracujá estava divinal e lembrou-me das que comi de facto no Brasil onde o maracujá é fresquíssimo, embora também o tenhamos na Madeira. E para os/as apreciadores de cheesecake, não sendo muito o meu caso, informo-vos que as de frutos vermelhos e de caramelo, nesta casa são especiais. Avançem para elas.

E fus√£o √© isto. Para mais, em portugu√™s. Como tal s√≥ tenho a recomendar este restaurante. No final desta "experi√™ncia", mais do que o sushi ser de fus√£o, a vida neste restaurante √© de fus√£o. A come√ßar pelo lugar que √© um sushi numa pra√ßa de touros, ao Chef P√©ricles que, como diz ele, √© "baiano mas criado no Estoril". Ao am√°vel casal formado pela Rita e o Tiago que adoram viajar. Ao Jorge, oriundo de Angola, das periferia de Luanda e a viver em Lisboa h√° j√° mais de dez anos, ao Lucas que t√£o portugu√™s que √© o seu sotaque, ningu√©m diria ser ele nascido no outro lado do Atl√Ęntico Sul junto a uma das maravilhas da natureza, a Foz de Igua√ß√ļ. Mas maravilhosas foram as comidas que esta equipa toda do SaikŇć nos preparou e trouxe √† mesa. Obrigado e muito respeito t√™m de mim. Fica ent√£o um especial reconhecimento, para al√©m da originalidade dos pratos aqui servidos, tamb√©m a todo o trabalho de pesquisa feito em torno da comida e da decora√ß√£o japonesa, calculo eu ter sido pela Rita e o Tiago, para al√©m do Chef P√©ricles, que aporta ainda mais autenticidade ao restaurante. √Č uma fus√£o mas que n√£o perde as suas ra√≠zes da terra do sol nascente.

E n√£o posso terminar sem desvendar o mist√©rio do motor... H√° que destacar ser o Chef desta casa, P√©ricles Lacerda tamb√©m um vice-campe√£o europeu de jiu-jitsu em 2005, e ser tamb√©m praticante de motociclismo de competi√ß√£o, tendo ganho j√° a Copa Dunlop Motovale. N√£o que eu seja um apreciador dos desportos motorizados nem muito menos violentos, que n√£o sou. Antes pelo contr√°rio, mas este baiano que passou pelo "sushimoto" tem de facto hist√≥rias para contar devido √† sua veia gastron√≥mica, desportista e empreendedora. Tem os meus cr√©ditos por isso. De ressalvar tamb√©m os planos de expans√£o j√° em andamento do SaikŇć para Madrid e Miami. A poucos meses de este grupo de restaura√ß√£o completar um ano de exist√™ncia, √© admir√°vel saber de tais planos. Pois c√° estaremos √† espera dessa not√≠cia. E j√° que os portugueses levaram os peixinhos da horta, hoje em dia transformados em "tempura" ent√£o, estes portugueses podem muito bem levar o melhor sushi de fus√£o lus√≥fono para estas paragens. S√≥ n√£o entendo √© porqu√™ diferenciarem Lisboa de Estoril. Se o √ļltimo √© tamb√©m parte da Grande Lisboa. Eu diria a n√≠vel internacional e para o resto do nosso pa√≠s que est√£o em Lisboa, Madrid e Miami. E em Lisboa diria que est√£o no Estoril, Campo Pequeno, Madrid e Miami. Julgo que fortalecendo a cidade temos todos a ganhar. Apenas esse reparo no impressionante relevo do vosso log√≥tipo nas escadas. Ent√£o resta-me desejar um feliz 2018 a este restaurante, mais uma vez apelar a que Lisboa venha ao SaikŇć. E a que, como dizia na TV o Chef Jo√£o Carlos Silva, fa√ßam o favor de ser felizes! De prefer√™ncia no SaikŇć!

SaikŇć Campo Pequeno Menu, Reviews, Photos, Location and Info - Zomato

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Lançamento de Os Meus Descobrimentos

















ūüďē Pr√≥ximo S√°bado, 16/dez √†s 17h
ūüĎČ www.bit.ly/lancamentolisboa - RSVP





Foram dez anos para at√© aqui chegar. A viajar, escrever, sentir e planear. E, sem dar por isso, fiz aquilo que √© um livro. Comp√™ndio de momentos, est√≥rias, pessoas e lugares, que juntos fizeram esta viagem. P√©riplo na Terra, que afinal √© mesmo redonda - e ainda h√° quem ache que n√£o

Este livro é feito de tempo, dedicação, carinho e pensamento. Também o quis fazer de uma ponta à outra, por mim mesmo, sem interferências de terceiros ou editoras. Afinal de contas, o livro é em si mesmo, um trabalho e quando o passamos a outros para o finalizar, a obra despersonaliza-se. Para evitar isso, contei com a colaboração de pessoas que traduziram o que queria e com as quais, em conjunto, finalizei Os Meus Descobrimentos.

Eles est√£o agora a nascer. A ver a luz do dia e uma vida nova come√ßar. De repente, Os Meus Descobrimentos deixar√£o de ser meus. At√© porque nunca os imaginei assim. Que sejam nossos. Vividos por mim, mas partilhados em conjunto. 

E é curioso como uma longa estrada, de novo, jaz adiante. Vamos então descobri-la.


Jo√£o Aguiar

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Reserva o teu exemplar










ūüďē Os Meus Descobrimentos
 

ūüĆź Volta ao Mundo em Couchsurfing
ūüĆź Lan√ßamento em dezembro/2017
ūüĎá Faz a reserva do teu exemplar 
ūüĆź www.osmeusdescobrimentos.com


quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Livro em Pré-encomenda


ūüďē Os Meus Descobrimentos
ūüĆź Volta ao Mundo em
Couchsurfing
ūüĎá Faz a reserva do teu exemplar 
ūüĆź www.osmeusdescobrimentos.com

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Engenheiro da Aldeia

Est√°vamos no mato de Mo√ßambique, algures entre as prov√≠ncias de Gaza e Inhambane. Um jipe viajava em miss√£o de reconhecimento e levantamento de necessidades energ√©ticas das aldeias nesta regi√£o. Um dos ocupantes era o Osvaldo, funcion√°rio da funda√ß√£o estatal que atribu√≠a energia a localidades remotas do pa√≠s. O outro era eu, a conduzir a viatura, funcion√°rio duma empresa portuguesa que instalava os sistemas de energia renov√°vel nessas aldeias. A paisagem era de √°rvores e mato denso. E as estradas n√£o eram bem estradas, porque apenas havia dois sulcos paralelos recortando a paisagem, de onde aflorava areia, a ess√™ncia escamoteada daquelas terras. Ali ao lado, a cerca de cem quil√≥metros estava o Kruger Park, o mais famoso parque de vida selvagem, com uma natureza t√£o bela e virgem quanto perigosa e mortal. Por mais que estivesse relaxado e focado nesta miss√£o entre m√£os, imaginava a possibilidade de nos cruzarmos no jipe com animais como le√Ķes, uma manada de elefantes enfurecida, rinocerontes, ou cobras, e quantas havia l√° naquele pa√≠s. A viagem prosseguia incessante e cronometrada. Depois de passar as aldeias de Mabote e Macha√≠la, conduzia a caminho de Chigubo. Era uma miss√£o com prazos apertados, e uma gest√£o constante do combust√≠vel, hor√°rios, quilometragem, recursos alimentares, etc.


Nessa estrada, a certo ponto, soltou-se um estrondo ribombante a partir da parte esquerda do jipe, uma Mahindra, de fabrico indiano, ao mesmo tempo que a direcção do jipe ginou para a esquerda. Valeram as linhas fundas que faziam a estrada, por onde as rodas deslizavam, que mantiveram o jipe no trajecto. Saindo cá para fora, vi que o jipe estava com a roda de trás em baixo. E isto por causa de um tronco tombado na estrada, mas que por não estar completamente chegado para fora, a ponta ainda foi suficiente para embater na jante e assim abrir uma valente fuga de ar, por deformação de um aro da roda. Com o apoio do Osvaldo, martelei aquilo com veemência, usando chaves metálicas pesadas que vinham com o jipe. E o aro da roda ficou mais redondo, apesar de não estar fechada a saída de ar. O suficiente para seguir viagem pelo menos.

A popula√ß√£o mais pr√≥xima estaria a cerca de uma hora de caminho, pela savana. Seguimos em frente. N√£o havia indica√ß√Ķes, sinais nem quaisquer marcas rodovi√°rias. E claro, se nem estrada havia sequer. Tudo o que havia eram duas linhas paralelas que se tocavam num ponto de fuga, preso no infinito, assim como toda a restante savana. Mas por outro lado, s√≥ havia uma dire√ß√£o a seguir, e era dif√≠cil perdermo-nos se a viatura seguisse essas marcas. Enfim, atravess√°mos a mata densa e plana at√© ao limite da vista, para de repente se ver o firmamento mo√ßambicano celeste que t√£o belo combinava com o sol radiante e t√≥rrido africano. Finalmente uma aldeia. Primeiro uma escola, depois um conjunto de cabanas, simples, espartanas, de lama e palha, um pouco mais √† frente. Ali ao lado um pequeno largo central daquela aldeia. Parei o jipe na entrada da escola. Com uma arquitectura de escola do per√≠odo colonial, igual √†quela em que o meu pai estudou, e a tantas outras espalhadas por Portugal e pelo antigo mapa colonial lusitano. Perguntei a um professor se conhecia algu√©m que nos pudesse arranjar a roda do jipe. Apanhados de surpresa, ele e a sua classe, ao que me pareceu, do ciclo prim√°rio, ficaram a matutar por instantes, para depressa o professor indicar o nome do Senhor Valter, a viver ali a poucos metros da escola. A aldeia era pequena, e por isso, l√° cheg√°mos depressa. No caminho as pessoas curiosas, acenavam, sorriam, aproximavam-se. Mas na correria para cumprir os prazos todos, e acima de tudo voltar com o jipe inteiro a Maputo, n√£o houve o tempo para socializar. No pior dos casos, contudo, voltar√≠amos √† boleia ou de "machimbombo", os autocarros locais. Por isso, haveria sempre solu√ß√£o, e uma estava para chegar.



Da casa que procurava brotaram logo √† vista: uma grande antena met√°lica, com cerca de vinte metros de altura; um espa√ßo aberto √† entrada da casa com uma cobertura, e com utens√≠lios de trabalhar madeira em cima da mesa, onde se viam m√≥veis em constru√ß√£o. Ali havia espa√ßo, algo que naquele pa√≠s ali√°s havia com fartura, pleno de terra, √°rea e vastid√£o. E as crian√ßas brincavam cirandando entre umas mesas que estavam em torno da grande antena, provavelmente para sinais de baixa frequ√™ncia, e o ateli√™. Envolvendo este cantinho da aldeia, ondas sonoras brotavam de um r√°dio em cima das mesas cobertas, de onde se ouvia uma voz informativa da r√°dio, ainda que com o som familiar mas tamb√©m inc√≥modo, da desintonia anal√≥gica do antigamente que rarefaz a emiss√£o devido √† imensa dist√Ęncia que separava a recep√ß√£o da esta√ß√£o de r√°dio. Enquanto me distra√≠a com a magia da r√°dio, uma senhora, parecendo a m√£e dos mi√ļdos, aproximou-se de mim, e da√≠ a aparecer o Valter, foram segundos, tendo ela ido cham√°-lo. Com um fato de macaco azul n√°utico, um l√°pis encurtado pelo uso, pendurado no tub√©rculo da orelha, e uma carapinha africana j√° um pouco crescida, de quem √© despreocupado com o cabelo, chegou o senhor. De semblante emp√°tico, tranquilo e dispon√≠vel, ouviu a situa√ß√£o, e de poucas palavras, foi buscar numa casa de madeira ali anexa, os utens√≠lios que considerou necess√°rios. Ao abrir a porta desta barraca, ca√≠ram coisas c√° para fora, em cima de n√≥s. S√≥ um, o Valter l√° podia entrar, pois tamanha era a acumula√ß√£o de todo o tipo de engenhos e materiais, n√£o saberia ele para que momentos dariam jeito, mas que sendo tantos jorraram pela porta. Neste manancial de parafern√°lia acumulada, ele saiu de l√° com um martelo e uma bomba de ar, e com o adaptador certo. Pois, como para quem enche uma bicicleta, ter a pe√ßa adaptadora errada, deixar-nos-ia sem poder desfrutar daquelas rodas.

Os mi√ļdos da escola j√° estavam todos c√° fora em torno do jipe, e quando tir√°mos a roda do jipe, ainda mais mi√ļdos se acercaram. Com o √Ęngulo certo para usar a bomba de ar, o seu √™mbolo deslizava lento e compassado, comprimindo o ar, preso naqueles cilindros. Para encher melhor, h√° que o fazer com calma. E assim foi, durante uns quinze minutos, em que volt√°mos a insuflar o pneu daquela roda. Aquele engenheiro ad-hoc da aldeia, salvou o momento, por ter aquela bomba algures perdida, saber us√°-la como ningu√©m e por se ter disposto a fazer tudo isto pela genu√≠na hospitalidade. A viagem podia seguir, com a roda martelada e enchida. N√£o deixando de pensar que nas aldeias, nas pequenas comunidades e grupos, h√° espa√ßo para uma pessoa se realizar a si mesma e contribuir para o grupo social, como sendo o engenheiro, o reparador de problemas, que guarda utens√≠lios, faz m√≥veis, capta os sinais de r√°dio oriundos de centenas ou milhares de quil√≥metros de dist√Ęncia. H√° necessidade deste conhecimento, h√° reconhecimento pelo seu trabalho e as mulheres da aldeia apreciavam estas val√™ncias, reparava. O meu pai tamb√©m √© assim, um engenheiro auto-didacta, sem qualquer diploma, mas uma vasta experi√™ncia em mec√Ęnica e electr√≥nica, aprendida pela necessidade, em estaleiros da guerra colonial. E algo disso ter√° passado para mim. Mas naquele dia faltou-me equipamento. Felizmente havia um engenheiro da aldeia com uma bomba de ar por perto. Porque, na minha opini√£o sempre h√° espa√ßo para um, at√© onde menos esperamos.

Jo√£o Aguiar

terça-feira, 18 de julho de 2017

Capa no prelo


ūüĒú Livro sai em Outubro ūüďē
ūüĆź Os 5 continentesūüĆź Portuguese Riders CrewūüĆź www.osmeusdescobrimentos.comūüď∑ Fotos: da minha autoria e est√£o licenciadas com cc by-nc-nd

segunda-feira, 22 de maio de 2017

No Meio do Mar Plantados


Ainda hoje me espanto com a ideia de que a mil e quinhentos quil√≥metros a oeste da costa continental portuguesa, existe um outro Portugal. Uma outra dimens√£o do pa√≠s que √©, inesperadamente, uma extens√£o ou realidade paralela, nunca deixando de ser parte do todo. Os A√ßores s√£o um Portugal t√£o portugu√™s quanto o restante, mas que de um modo t√£o surpreendente quanto interessante, aportam uma diversidade, dimens√£o e profundidade √ļnicas ao pa√≠s, afinal n√£o somente, √† beira-mar plantado.

Aterrar no aeroporto da ilha de S√£o Miguel, Jo√£o Paulo II, √© um momento belo e apreci√°vel, pela paisagem viva e verdejante envolta, que ornamenta os v√°rios promont√≥rios que avistamos, assim como pela cidade de Ponta Delgada aposta, que nos enche a vista quando l√° aterramos ou levantamos voo. Chegados, d√°-se outro valor ao aeroporto Humberto Delgado, mais sofisticado, complexo e portentoso, como n√£o poderia o deixar de ser tamb√©m, pela sua localiza√ß√£o na capital. Em oposi√ß√£o, nestas ilhas atl√Ęnticas n√£o passam tantos voos, mas n√£o deixa de haver uma estrutura aeroportu√°ria funcional, agrad√°vel e aconchegante, que nos acolhe no in√≠cio da viagem.

Quando l√° voei, ia abrir, a potenciais compradores, a porta de uma casa que estava √† venda. E isto no lado oposto da ilha, a Ponta Delgada, o que me permitiu ent√£o calcorrear uma parte do seu territ√≥rio. Fui at√© Santo Ant√≥nio, a Calhetas, onde pelo caminho, em Capelas, pude vislumbrar uma forma√ß√£o rochosa na recortada encosta da ilha, e que ao longe se confundia com o perfil de um elefante a distender a tromba √† √°gua oce√Ęnica. Depois seguiram-se os Fenais da Luz, assim como a freguesia de Rabo de Peixe, onde sobressa√≠am a pobreza, o consumo de droga e, em √ļltima an√°lise, a degrada√ß√£o da vida, sendo estatisticamente aquela a freguesia mais pobre do pa√≠s. De seguida, pude conhecer as furnas, junto √† Lagoa do Fogo. E se a intensidade da clorofila por l√° √© distinta, e se esta cor √© s√≠mbolo de esperan√ßa, ent√£o por l√° mais haver√°. Por v√°rias vezes, nesta ilha, dava por mim a recordar-me da Irlanda, e do intenso e carregado manto de relva que a cobria. Os A√ßores lembram-nos disto.

Outro mist√©rio que pude desvendar nesta ilha, √© o sotaque micaelense. De onde vir√° este fechamento arredondado das vogais, impelido por um contorcionismo vocal das s√≠labas? Vem da Fran√ßa, pasme-se! Pois, no in√≠cio da coloniza√ß√£o desta ilha vieram v√°rios franceses para a povoar, em conjunto com os portugueses. Outras ilhas, por terem sido colonizadas de outras formas, por exemplo a do Faial, que foi por portugueses e holandeses, deram origem a sotaques distintos neste arquip√©lago (e tudo isto, em √ļltima an√°lise, comprova as teorias de Darwin...).














No regresso a Lisboa, passaria pela Terceira mas devido ao mau tempo no Atl√Ęntico (indicava a metereologia), fomos obrigados a pernoitar pelas ilhas. Numa oportunidade √ļnica e imprevis√≠vel, cruzei-me no hotel pago pela companhia a√©rea, com o companheiro de causas sociais, o Tito de Morais. Mesmo t√£o distantes do continente, haver√≠amos de nos encontrar, a caminho do pequeno-almo√ßo, nos preparos finais para ele ir para a escola onde iria prelecionar, e eu para ir at√© √†s Lajes, a caminho de casa. Nesta estadia inesperada, foi tamb√©m poss√≠vel calcorrear a Praia da Vit√≥ria, que at√© ent√£o apenas conhecia da avenida do Saldanha, onde anos a fio, adorava ir ver os filmes de bollywood e os ciclos da Zero em Comportamento, no j√° encerrado Cine-est√ļdio 222. Nesta vila, o sotaque era j√° padronizado, que tamanha alteridade para o que ouvira horas antes em S. Miguel, me deixou t√£o curioso e atento, quanto amalgamado. Nesta terra insular, √© comum ouvir os locais vangloriarem-se de ser aquele o lugar, durante os √ļltimos cinco s√©culos, mais portugu√™s foi, pois aquando da ocupa√ß√£o filipina no continente, o ent√£o rei, ainda que por pouco tempo, D. Ant√≥nio (Prior do Crato) instalou-se na Terceira, tendo mesmo l√° sido instalada a Casa da Moeda. O nome Praia da Vit√≥ria, √©, tamb√©m ele, devido a um outro singular epis√≥dio da nossa hist√≥ria coletiva, no qual, os liberais liderados por D. Pedro, fizeram sucumbir as tropas absolutistas, do seu irm√£o D. Miguel. A batalha ocorreu l√°, e saindo vitoriosos os primeiros, que depois reinaram o pa√≠s, ficou assim o nome da localidade.














Os Açores são ilhas diversas, inesperadas e que nos sublimam os sentidos. Compostos por paisagens vivas, feitos de história, e de um sentimento díspar pela terra e pelo mar, são um novo país dentro de Portugal, e agora tanto ao mundo descerrados, que devem ser conhecidos, porque estão ali para nós, no meio do mar, plantados.


segunda-feira, 15 de maio de 2017

Tranquilidade


√Č a certeza no futuro
de um desenlace ao nosso agrado.
√Č conseguirmos ver no escuro
mesmo de peito escudado.


√Č o que sentimos ao ver o oceano
e sentirmo-nos parte dele.
Porque nos invade os sentidos
como se estivéssemos a vivê-lo.

√Č ouvir a m√ļsica que acalma,
encerrando os nervos da alma.
Que por segundos, minutos ou horas
nos traz a mente ao espírito, sem pressas nem demoras.

domingo, 14 de maio de 2017

Acreditar ou partir

Engraçado como a história se repete. Ou talvez não... Cem anos depois do milagre de Fátima, e num só dia, o Papa esteve em Portugal, o Sport Lisboa e Benfica sagrou-se tetracampeão nacional de futebol, e, surpresos, admitamo-lo todos (ainda que por uma sistémica descrença nacional), ganhámos a Eurovisão. Para mim, contudo, as duas vitórias não foram surpresa... talvez devesse começar a apostar online

Toda esta conjuga√ß√£o de eventos poderia ser apenas uma coincid√™ncia, ou algo de divino. Mas n√£o, c√° para mim, n√£o foi uma coisa nem outra, pois a energia an√≠mica vertida sobre a sociedade portuguesa, derivada do primeiro dos tr√™s factos, potenciou os outros dois. E interpreto que o Benfica alcan√ßar o "tetra", at√© seria expect√°vel, mas o Salvador (e l√° est√° a simbologia messi√Ęnica do nome, para mais a 13 de maio de 2017) vencer a Eurovis√£o, caros crentes... desabafem e assumam que isto pode ser considerado milagroso. Talvez seja a reedi√ß√£o dum hipot√©tico milagre que sucede de cem em anos, neste dia, deste m√™s. E √© tamb√©m curioso que em 1917 as apari√ß√Ķes foram largamente adoradas (e instrumentalizadas) na R√ļssia, em ano de revolu√ß√£o bolchevique, e que √† √©poca englobaria Kyiv, (cujo territ√≥rio estaria contudo em disputa) e agora, sucede a vit√≥ria do concurso da Eurovis√£o numa simetria inversa. 

Portugal √© hoje em dia, ainda que de um modo escamoteado, um dos pa√≠ses mais cat√≥licos e religiosos, do mundo. Pelo que o vigor de um estado laico por c√° √© question√°vel. Talvez se verifique um pouco, porque as leis assim o ditam, ou at√© porque o primeiro-ministro descende de hindus, e esse respeito por esta diversidade transmitir-se-√°, em parte, na pesada estrutura vertical da sociedade portuguesa. Lembremo-nos tamb√©m que Portugal tem a cruz de Cristo estampada seis vezes na sua bandeira... No fundo, a explica√ß√£o para esta pseudo-laicidade, reside em, por um lado, o "estado laico" ser um princ√≠pio republicano franc√™s e em, uma vez mais, termos copiado um conceito legal sem perceber a sua validade por c√°, e, por outro lado, em Portugal a religi√£o ser t√£o estruturante √† popula√ß√£o, que ent√£o, restar-nos-√° aceitar esta extrema e inevit√°vel religiosidade, ou partir para outro lugar. Pois n√£o acredito em milagres.


















Fotografia: Sintra.

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Motivação

Motiva-me o amor, a paix√£o
O tempo e a ausência de idade
A vida no campo e na cidade
Assim como o mar e a insularidade.

Movem-me o espaço, a geografia
Os valores e a cidadania
O humano e a humanidade
O humanismo e a verdade.

Se um poeta é um fingidor
Eu n√£o rimo nem sinto
Mas como me comovo e emociono
Eu sou poeta e n√£o minto.



quinta-feira, 4 de maio de 2017

Galapinhos é grande!

A praia de Galapinhos foi este ano eleita a melhor da Europa. Desde os tempos em que l√° ia mergulhar com os meus tios e primos de Set√ļbal, nas f√©rias de ver√£o, que acho isto... e este recanto ainda est√° no meu top mundial de praias. Galapinhos √© grande!



terça-feira, 2 de maio de 2017

Est√°tuas da Liberdade

Quando regressava a casa vindo das celebra√ß√Ķes do primeiro de maio, subi a art√©ria central do centro de Lisboa, a Avenida da Liberdade. Qualquer alfacinha j√° l√° passou imensas vezes mas acho que quando regressamos e revemos os lugares, h√° sempre coisas novas que observamos, tal como quando vemos o mesmo filme duas vezes, √† segunda h√° novos pormenores de que nos apercebemos. E assim vi-a de um outro modo.

Ao subir a avenida, um conjunto de est√°tuas cruzou-se no meu caminho. A primeira de todas, do hist√≥rico libertador da Am√©rica do Sul e Central, Sim√≥n Bol√≠var, a quem se presta uma eterna admira√ß√£o na Rep√ļblica Bolivariana, e l√° est√° o nome dele na etimologia, da Venezuela. Ou na Bol√≠via, a quem se dedicou todo o nome do pa√≠s. As √°rvores da avenida abriram-se num dos passeios laterais, perante o elevado e imponente vulto em bronze verde, deste militar. Ao ler as inscri√ß√Ķes na base da est√°tua, com a lista dos pa√≠ses por ele libertados - Venezuela, Bol√≠via, Peru, Col√īmbia, Equador e Panam√° - √©-me despertada uma imagem de gritos de guerra, revolu√ß√£o, sofrimentos e alegrias populares. Como se todas as lutas e batalhas pela independ√™ncia, feitas de vit√≥rias e derrotas, do vermelho sangue e da √°gua salgada do choro e suor dos militares, ali estivessem plantadas em respeito √†quela pessoa. N√£o deixei de reparar que foi em 1978, ainda no rescaldo da nossa mais recente revolu√ß√£o, que se homenageou aquele prol√≠fico libertador popular.

Mais acima, um busto, tamb√©m de bronze, no topo de uma coluna branca, que nos d√° pela altura do tronco. O vulto √© de Chopin, o g√©nio compositor musical, de naturalidade polaca, e a quem se prestou, h√° pouco tempo atr√°s, uma t√≠mida homenagem, ali no outrora "Passeio P√ļblico". Deste ponto, ao olhar para o outro lado das faixas de rodagem, vislumbrei um imponente trabalho em pedra gran√≠tica e bronze, no qual lia, √† dist√Ęncia, em letras grandes inscritas na pedra, "Primeira Guerra Mundial", erigido em homenagem √†s v√≠timas, guerreiros e sobreviventes portugueses deste nefasto epis√≥dio da hist√≥ria contempor√Ęnea. Dela emanava dor e sofrimento mas tamb√©m vit√≥ria, nacionalismo e uni√£o dos soldados. Enquanto a via, no plano por detr√°s, harpejava incessante a bandeira na janela do consulado de Espanha, √† porta do qual uma patrulha de pol√≠cias armados com metralhadoras at√© aos dentes, por l√° se entretinham, para sempre, √† procura de um qualquer sinal terrorista, e com que crit√©rios, sabia-se l√°. O m√°ximo que viram, ter√° sido talvez, embora na resid√™ncia do embaixador, aquando da memor√°vel manifesta√ß√£o de 15 de outubro de 2012. De resto, nada... e a um custo elevado para o er√°rio p√ļblico.

O pendente desta avenida que se expande desde os Restauradores (lugar de outra importante estátua aos nossos heróis de 1640) até à "Rotunda", intimida mais do que cansa, e por isso depressa subi outro trecho até ao cruzamento com a Alexandre Herculano, onde são homenageados o político Oliveira Martins, o nosso Almeida Garrett, e outro grande escritor, também político liberal e deputado patriota, que dá nome a esta transversal da "Avenida".



Já no topo da estrada e fim da "Liberdade", aguardava-me não uma rotunda, mas antes uma "turbo-rotunda" (versão melhorada da primeira com duas rotundas separadas e concêntricas), inaugurada há poucos anos atrás, mas com um assinalável erro de planeamento na drenagem de águas, identificado no dia da inauguração, por um cidadão anónimo. A estátua, feita de um exagero de pedra e metal, foi feita em honra de alguém que, tendo feito coisas boas por cá, perseguiu e matou muita gente. Sempre que se apura o campeão nacional de futebol, o alvoroço ao redor deste lugar é exagerado, e só possível num país que respeita tanto ou mais este desporto do que a própria religião. Qual a diferença entre os dois? Perguntava-me e refletia enquanto caminhava.

Depois de calcorrear este ex-libris, pelo menos rodovi√°rio, da cidade, n√£o deixava de me orgulhar de que, se na outra costa do Atl√Ęntico Norte, h√° uma est√°tua da Liberdade, por c√° n√≥s temos todas estas as est√°tuas na "Liberdade".

s√°bado, 18 de fevereiro de 2017

O Batman é brasileiro

Livro - Os Meus Descobrimentos - em breve à venda ! Site osmeusdescobrimentos.com a ser finalizado.


O Batman é brasileiro
Aos fãs desta personagem do mundo fantástico das bandas desenhadas norte-americanas e também dos cinemas, porque depois do papel vem a tela de projeção, fica a informação de que o Batman é mesmo brasileiro! E vou aqui comprovar a minha tese.
A arte urbana brasileira √© pr√≥pria, e vive muito de uma caligrafia √ļnica no mundo inteiro. No conceito mais lato do que √© a arte urbana encaixam-se vertentes como o tagging ou "pixo" (e n√£o √© engano) na g√≠ria de rua brasileira, ou como o bombing, silver, wall of fame, trem, etc. Ao olhar do viajante mais atento poder√£o assemelhar-se os "pixos" a tipografias de rua de crews ou gangues mexicanos mas √© singular o que encontramos no Brasil, pelas v√°rias cidades fora mas em especial em S√£o Paulo. O objetivo √© o velho instinto humano que nos vem ainda inculcado nos genes: marcar territ√≥rio. E na "mega" urbe de S√£o Paulo, v√™-se este fen√≥meno, assim como as suas consequ√™ncias de uma forma t√£o ousada, arriscada e competitiva que √© suficiente para imprimir indelevelmente uma mem√≥ria, boa ou m√° dependendo do viajante, sobre a arte que se manifesta nas paredes desta selva de cimento colorido. Em resultado desta pr√°tica de marcar terreno, jovens sobem, escalando-os autenticamente, pr√©dios de mais de dez andares para l√° colocarem a sua marca pessoal, e tipicamente em S√£o Paulo, composta de linhas geom√©tricas, essencialmente de losangos.
Na vertente de wall of fame, e indo agora ao tema do post, nesta gigante urbe, há um conjunto inteiro de ruas situadas na agradável, artística e boémia Vila Madalena, que veem as suas paredes inteiramente pintadas de copiosos, coloridos e complexos graffities. Alguns compostos de estética de desenho pura, outros com mensagem, vide fotografia.
E o que tem tudo isto que ver com o xerife heterónimo de Gotham? O nome da área é "Beco do Batman"! Ora se ele mora ali, veja-se aliás numa das fotografias, então o Batman é mesmo brasileiro! C.q.d.
:)

Mais fotos desta viagem no link

Livro - Os Meus Descobrimentos - em breve √† venda ! - acompanha o blog osmeusdescobrimentos.blogspot.pt e visita o site osmeusdescobrimentos.com


segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Gales ali t√£o perto

Livro - Os Meus Descobrimentos - em breve √† venda ! - acompanha este blog e visita o futuro site do livro osmeusdescobrimentos.com .


Apenas a duas horas de comboio de Londres, sita a capital de um dos estados que formam o Reino Unido. Na sua designa√ß√£o em portugu√™s, √© mais do que estado, sendo mesmo um pa√≠s, de Gales. Desde a gare ferrovi√°ria de Paddington, localizada na posi√ß√£o estrat√©gica centro-oeste do mapeamento londrino, a partir das cinco horas da manh√£ circulam velozes e sofisticadas composi√ß√Ķes de locomotivas e carruagens da marca Hitachi, ao servi√ßo da Great Western Railway (GWR), empresa √† qual foi adjudicada a explora√ß√£o comercial da linha que liga Londres ao Pa√≠s de Gales. E sim o nome desta linha, tal como o da ilha brit√Ęnica e quase tudo o resto, √© tamb√©m Great. Mas de onde advir√° esta eterna e incessante necessidade de este povo se auto-declarar grandioso em tudo? Talvez porque a ilha, em si, √© de pequenas dimens√Ķes, sendo ent√£o imperativo ludibriar os demais - apenas duas vezes e meia maior do que Portugal, e j√° incluindo aqui a Irlanda do Norte. Mas, por esta ordem de ideias e de afirma√ß√£o duma pseudo-grandeza, Portugal √© tamb√©m grandioso, ainda para mais, depois de ganhar o campeonato europeu de futebol, o Euro 2016. E se esta necessidade de auto-engrandecimento ainda seria vista como algo cr√≠vel antes da descoberta do novo mundo, depois desse marco na humanidade, j√° n√£o faz qualquer sentido, pois o grande de outrora, em √°rea pelo menos de um ponto de vista mais objetivo, j√° n√£o o √© agora, num tempo civilizacional em que pa√≠ses como o Brasil, Canad√°, M√©xico ou E.U.A. "rebentam" com a pequena Gr√£-Bretanha, em √°rea.

Esta√ß√£o de Paddington - Londres.






















Pela linha GWR deslizava a composi√ß√£o, ora suave e com baixa turbul√™ncia na cabina permitindo assim desfrutar mais da paisagem, ora c√©lere e j√° trepidante na carruagem de passageiros. Os bilhetes, aconselho a que os comprem antecipadamente, pois a lei do mercado tudo rege neste cantinho do mundo, n√£o fosse o inventor do axioma da oferta e da procura, tamb√©m ele brit√Ęnico, o profeta capitalista Adam Smith, apologista da confian√ßa numa m√£o invis√≠vel que rege a sociedade. Na internet, encontram-se bilhetes baratos, logo nos resultados cimeiros da lista do google, e ora, se os vir, agarre-os e "n√£o deixe para amanh√£ o que puder fazer hoje", pois na esta√ß√£o de Paddington, os bilhetes ser√£o entre 2 a 3 vezes mais caros, dependendo da hora de sa√≠da e da procura pelos bilhetes (l√° vem de novo √† terra o santo Adam Smith, que se manifesta em todos os aspetos econ√≥micos desta pequena grande ilha...).

Cardiff, Cardiff, no horizonte. A oeste, e quase em linha reta, de Londres, capital do Reino, ainda, Unido. Reading, Swindon, o entroncamento ferrovi√°rio para Bristol, Newport - a primeira cidade galesa que cruzei nesta viagem, e enfim, Cardiff Central.








Um velho amigo aguardava-me √† chegada. E ao tempo que n√£o via este jovem. Em adolescentes tivemos um grupo musical de hiphop, e a vida, as rela√ß√Ķes, as tropelias e trabalhos desta vida, levaram-no para outros quadrantes na Europa... at√© Cardiff, que parecia ser enfim um destino final para este comparsa. Munido do seu expertise local pude usufruir mais do meu tempo na capital daquele pa√≠s. A passagem por Newport, cidade mais a Este, j√° fora de uma beleza inolvid√°vel. Bem cedo, parti do bul√≠cio de Londres, eram oito da manh√£, duma esta√ß√£o apinhada de profissionais aprumados, a procurarem um lugar vazio no comboio. A maioria ia sair em Reading, lugar de significativo p√≥lo universit√°rio (e onde √© que n√£o h√° boas universidades neste reino, afinal?) assim como tamb√©m um importante centro de opera√ß√Ķes da National Grid (ou seja, Reading √© uma esp√©cie de Vila Franca de Xira brit√Ęncia, do ponto de vista log√≠stico), e no apeadeiro seguinte encontra-se Swindon, algergue para um cluster de empresas tecnol√≥gicas que, mais distantes de Londres, beneficiam da tranquilidade buc√≥lica que os stressados engenheiros tanto precisam para conseguirem gerir as suas equipas. Depois, e passando por uma esta√ß√£o chamada Bristol, mas na verdade situada ainda a dez quil√≥metros dela, chega-se a Newport, onde o sol, erguendo-se a a Este, se fazia refletir e dourar pelo rio Usk que se estendia por bra√ßos de mar at√© ao sal do Canal de Bristol no Atl√Ęntico Norte.


Newport - País de Gales.



















"Cardiff central" é a estação a escassos metros dos principais cruzamentos da cidade. De lá caminhei, tendo parado poucos minutos depois numa loja de venda de instrumentos musicais. Era inevitável! Para perscrutar os preços locais, pois a verdade é que a tecnologia musical é mais ubíqua por estes lados do globo. E em Cardiff os preços poderiam tender a ser mais em conta, do que o poço inflacionário da capital do reino.

Esta cidade, de dimens√Ķes m√©dias, √© tamb√©m ela, nos tempos que correm, dominada no seu cerne por um centro comercial. O centro urbano foi requalificado dando origem a uma nova biblioteca e um manancial de galerias, que embora rodeadas por igrejas renascentistas assim como ladeando o impressionante castelo desta urbe, n√£o deixam de ser um conjunto arquitet√≥nico desenquadrado do todo que √© a ambi√™ncia medieval e m√≠stica de Cardiff. Mas os tempos atuais s√£o pautados pelo predom√≠nio do com√©rcio, capitalismo e conhecimento, que √© o que econtramos na rua The Hayes. Acrescer√° ainda o dissabor de que estas obras de reconstru√ß√£o no centro da cidade, levadas a cabo entre 2007 e 2010, foram financiadas pela Uni√£o Europeia... e agora, fundos aproveitados, brexit! Mas verdade seja dita, muito tamb√©m deram para a UE, os contribuintes do Reino Unido, pois todos n√≥s participamos nos fundos coletivos, atrav√©s do IVA/VAT

Ao caminhar no centro, na principal rua de com√©rcio da cidade, a The Hayes, poder√° o viajante reparar na est√°tua de John Batchelor, um empres√°rio e pol√≠tico gal√™s do s√©culo XIX, tamb√©m presidente da c√Ęmara de Cardiff por um tempo, e a quem foi atribu√≠do o ep√≠teto de "amigo da liberdade", devido √† sua campanha contra a escravatura.


 











  



Cardiff √© uma cidade m√©dia, que no seu conjunto do centro e arrabaldes, abriga 350 mil habitantes. Duma ponta √† outra, v√£o cerca de seis quil√≥metros, e se imaginarmos uma cidade como um c√≠rculo, pois esta n√£o passar√° de metade, pois situa-se e cresceu em meia-lua, limitada pelo mar. Se tentar estabelecer um paralelo entre esta cidade brit√Ęnica e uma portuguesa, apenas para que o leitor possa mais facilmente visualizar esta cidade pelo seu tamanho, apontaria para a √°rea urbana de Set√ļbal, tamb√©m assente na costa e limitada pelo mar, e o rio.

Seguindo caminho das recentes galerias at√© ao fim da rua The Hayes, a "rua direita" de com√©rcio de Cardiff, avistamos ent√£o √† esquerda o Castelo de Cardiff, e √† direita a C√Ęmara Municipal. A extensa, quadrangular e geometricamente perfeita forma do castelo impressiona e invoca o viajante at√© ela. N√£o obstante, o conjunto de edif√≠cios da municipality e da universidade, al√©m de bonitos incluem nele inscri√ß√Ķes como "Poetry and Music". Ainda muito no centro, e mesmo ao lado do castelo que serviu de base √† cimeira da OTAN/NATO em 2014 (e que n√£o teve nem metade das manifesta√ß√Ķes que se viram em Lisboa em 2010 - ler o romance "Ativistas"), encontra-se o vasto, plano e apaziguador Bute Park, e que tem de facto motivos para se convidar algu√©m para l√° ir... "bute l√°?" :) Como √© apan√°gio nos pa√≠ses angl√≥fonos desenvolvidos, os bancos de jardim s√£o o espa√ßo preferencial para fazer uma dedicat√≥ria oficializada a algu√©m perecido, o que √© vis√≠vel pelas imensas pequenas placas colocadas a meio do encosto do banco, onde muitos locais prestam homenagem a entes queridos. Cerceando os vislumbres que se tem da cidade a partir da esta√ß√£o de comboios, marca tamb√©m presen√ßa o est√°dio municipal pelos seus elevados, curvos e portentosos arcos met√°licos, deste recinto desportivo que h√° bem pouco tempo, em 2015, recebeu alguns dos jogos do campeonato do mundo de rugby.  





  

 


 


Pelas ruas da cidade, respirava-se a frescura mar√≠tima, enquanto se passeia por um misto de hist√≥ria e obras urbanas mais recentes. As placas de tr√Ęnsito e com dire√ß√Ķes s√£o bilingues, com espa√ßo tamb√©m para o gal√™s, l√≠ngua de matriz celta e praticamente indecifr√°vel para o habitual falante e leitor de ingl√™s. 




 





No que refere √† gastronomia, o que esperar da culin√°ria nativa brit√Ęnica? Ainda que a maior gentileza, agradabilidade e singeleza de Cardiff e do Pa√≠s de Gales, possam ser tamb√©m manifestadas na comida local, optei por, e n√£o resisti, a sentar-me √† mesa num restaurante de inspira√ß√£o portuguesa (sim, e de inspira√ß√£o apenas, porque a comida j√° estava algo cafrealizada no ecossistema local), onde me serviram um bife na pedra acompanhado de uma cerveja super bock. O Nando's das galerias de restaura√ß√£o Brewery Quarter estava lotado, e como tal, servi-me deste cantinho pseudo-lusitano ali ao lado. De destacar os maus modos do gerente do espa√ßo que ao saber que sou de Lisboa, se fechou na conversa, express√£o facial e se enrolou em atrasos dos pedidos para a mesa. Ainda estas infantilidades norte-sul... e talvez ainda mais presentes, fora deste ret√Ęngulo √† beira-mar plantado.

No final do passeio, "merenda comida, companhia desfeita", e se não eu aprecio este adágio, desta vez foi mesmo assim, rumando a Londres de volta e num bilhete mais barato, pois a procura pelas três da tarde é menor... Oh Adam Smith que estais no céu.... :) é imperativo lembrar. Bem, e no fim do dia, de regresso a metrópole londrina, pensava para comigo que com Gales ali tão perto, esta Bretanha não é assim tão grande.












Mais fotos desta viagem no instagram: instagram.com/jaguiartravels

Livro - Os Meus Descobrimentos - em breve √† venda ! - acompanha o blog osmeusdescobrimentos.blogspot.pt e visita o site osmeusdescobrimentos.com